Nó.

Como explicar esse nó que tranca a garganta? É um nó muito bem atado. Incomoda, sufoca, arde as vias respiratórias. Ele me ensina. Me faz compreender o que é e de onde vem.

O nó vem de quem eu sou. Esse ser constantemente questionado por terceiros, julgado por segundos, indagado a ferro e fogo por mim mesma. Por que sinto, como sinto e de que maneira chego a este sentimento?

Hoje tirei 40min do meu almoço de praxe; inicio ao 12h retorno as 13h30 (você pode até virar autônoma, mas a disciplina de horário não vem junto nessa mudança) para assistir “The lady in nº6”. Parei aos 14:09min do documentário. Aquele nó tão conhecido por mim havia se instalado na garganta. Pronto. Não consegui ir adiante.

Vieram pensamentos e recordações tão felizes que tive que viver esse momento.
Alice, a senhora que estrela o documentário (ESTRELA no sentido literal da palavra) – menciona em certo momento, que:

“…o que aprendemos na escola é importante. Muito importante.
Mas mais importante é a atmosfera.
A atmosfera intelectual dos pais. Em casa. Isso permanece conosco até o fim.”

Inevitavelmente me coloquei a pensar na minha atmosfera. E, vejam bem, do meu ponto de vista temos duas atmosferas: aquela em que os pais oferecem de pleno acordo e intenção, e há aquela atmosfera que os pais doam de alma, inconscientemente, pois essa é a atmosfera real, de quem são, como foram criados e quanto se transformaram até então.

Veio o sorriso do meu avô, com livros, revistas, jornais e matérias sobre o Egito, a economia do País e os cafezais. Veio o semblante da época em que tive padrasto e que ele passava carinho com o olhar, com sua doação da coleção em capa dura de Agatha Cristie. Veio o tilintar das pulseiras de prata da minha mãe junto ao livro e ao balanço do seu corpo perante um altar de Budismo Japonês. Veio o toque carinhoso da minha vó quando eu estava impaciente na igreja, juntinho dela, olhando meu relógio analógico – havia recém aprendido a “olhar” a hora, dizendo no silêncio: ” calma, filha, já tá acabando, vem a parte que você gosta, a musica”. E lá estava eu, em pé, cantando as musicas da igreja. Veio o movimento de toda a minha família portuguesa, das lacunas vazias sem irmãos até os 18, da irmã-prima adotada e admiração por ela. Veio o amor dos padrinhos e tios. Veio a independência calada e apoio quando criei coragem e fui conhecer meu pai aos 19 anos. E com tudo isso, veio o amor. Da forma mais imperfeita do mundo.

Não me faltam também abraços. Puxões de orelha, ou “vá por sua conta”, mas pode voltar, “porque estaremos sempre aqui.” E, sabem? Essa tal de atmosfera apaga e ofusca a escola. No entanto ascende e ilumina o caminho, e mostra que a escola é necessária, que os livros os são, que a faculdade também, que o trabalho dignifica e que a vida é um caminho a ser percorrido.

Continuo com o nó. E é um nó feito de pequenos “nózinhos” carregados ao longo do tempo. De uma amizade desfeita. De um encontro que não aconteceu, da mudança de cidade que eu tive que fazer. É um nó de não ser perfeita para o mundo. É um nó que vai permanecer até quando a aceitação vir de mim mesma. Porque o nó revela quem eu sou. Com as lágrimas, a falta de coragem e a vontade de viver. Os nós tem nome e sobrenome. E se precisar, recorrerão a outras vidas e sem nome ficarão.

A minha atmosfera foi construída mas está em constante mutação;
Talvez no Egito, talvez. Talvez sob um pé de Acácia.
Talvez sob o cafuné do meu avô.

DSC02457

Sobre o documentário:

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