60 dias

Até pouco tempo atrás eu dizia às pessoas: “sabem, não sei como é perder alguém. Nunca perdi ninguém. Posso imaginar que dói, mas não conseguiria me colocar no lugar e viver esse sentimento“. Cá estou, exatamente às 02h25 no horário da cidade de Santiago, no Chile – e não consigo dormir. Aliás, não consigo dormir há alguns dias.
Tentei de todas as formas explicar esse incômodo, essa falta de sono, esse vira daqui e se ajeita de lá, como faz um cão que busca um encaixe perfeito. Não consegui. Muito vinho, pouco vinho. Muita comida, pouca comida. Falta de exercício, excesso de exercício. Fuso, jet lag, novidades, ansiedade. Até pouco tempo atrás eu tinha algumas idéias, de vir para o Chile, ficar um tempo, e como tudo na vida, tudo, toda e qualquer decisão – mesmo casada, como assustava alguns, eu ainda pedia a opinião do meu avô. Talvez eu quisesse mesmo dividir o peso, receber um sorriso de lado, com o olhar brilhando e dizendo: “você é minha estrela, filha. E você sabe disso.”. Talvez eu quisesse que ele fosse o responsável por todos os passos à frente que dei, por todas as escolhas difíceis que tomei, por cada decepção que vivi. Talvez quisesse compartilhar o fardo, a glória. Talvez só quisesse viver esse momento, de ser filha, de ser neta, de ser amada. Não pude fazê-lo claramente dessa vez. Estávamos vivendo recentemente algo diferente. Eu selecionava o que queria contar, eu reservava todos os momentos para perguntas, eu queria mais dele, sua família, o que havia vivido, o que achava do azul, qual livro gostaria que eu comprasse para ele na livraria catarinense. Até pouco tempo atrás eu não sabia o era viver sem ele. Não há quase nada muito diferente, ainda me emociono quando lembro de algumas histórias, por exemplo, quando ele chegou em MG após ter vendido tudo, casa, mercado, para que no meu aniversário de 10 anos pudesse demonstrar que simplesmente não aguentávamos mais viver separados,  ou quando eu aluguei meu primeiro apartamento em Itajaí e ele me ligou para contar que me daria uma cama. Poucos chorariam tanto no telefone dentro da empresa por uma cama. Eu tampouco. Eu não chorava pela cama. Chorava porque falar com ele ao telefone despertava em mim sentimentos únicos. Chorava porque ele era único. Era o meu único. Chorava porque valorizava cada exemplo, cada atitude, cada pensamento. Até pouco tempo atrás não pensaria em trazer ele comigo ao Chile para que sentisse a vida. Eu me abraçava em cada olhar, eu me agarrava em cada expressão da sobrancelha. Eu jurava ter conhecido a tal da esperança e tinha fé que a vida era um ciclo. E que eu estaria pronta, para o que fosse. Mas não. E aí? Como é que a gente faz para dividir isso? Como é que a gente faz para entender e sentir a energia e o amor? Como é que a gente faz para se contentar com uma foto, com um escapulário? Como é que a gente faz quando percebe que nada disso tem valor? Como é que a gente faz com essa saudade até então desconhecida, que chega quando tudo é silêncio, quando a noite entra e o travesseiro é testemunha? Até pouco tempo atrás eu buscaria todas as respostas nele, mas agora esse retorno pode demorar um pouco para ficar claro. A conclusão mais próxima é de que somos muito além de tudo isso, dos abraços, dos olhares, do coração que pulsa. De que somos muito além do que procuramos dentro do conforto do próprio peito.

Eu me sinto tão mínima que não encontro gestos à altura para reconhecer a falta que ele me faz. Como se precisássemos de ações, de palavras ditas em alto tom, de mensagens enviadas, de pedidos de ajuda, de ombros úmidos com o calor das nossas lágrimas.Até bem pouco tempo atrás a frase “os mais fortes sentimentos são aqueles que não conseguimos expressar em palavras” era poética para mim. E olha que eu adorava dividir as poesias com ele. Mas não há poesia que resista encontrar memórias minhas nas coisas dele. Provas do relacionamento fiel, gentil e recíproco que tínhamos.

 

Até bem pouco tempo atrás eu voltaria do Chile com um kit de pimentas puramente chilenas só para ele. Um cartão postal entregue em mãos, dizendo nele: só estou aqui porque você me acreditou em mim. Essa é mais uma das viagens, pai, das quais eu sempre volto para que possamos ficar até de madrugada conversando em como a cordilheira é linda lá do alto… Santiago do Chile, 27 de julho de 2016. 60 dias “sem” você.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s